Trabalhar com eletricidade é, sem dúvida, uma das profissões mais arriscadas que existem. Por ser um
fenômeno que escapa aos nossos sentidos — afinal, a eletricidade não é vista, apenas suas manifestações
— muitos profissionais acabam subestimando os riscos e sendo expostos a situações de perigo ignoradas.
Dados alarmantes reforçam a necessidade de atenção: apenas no primeiro semestre de 2020, o Brasil
registrou 741 acidentes com energia elétrica, resultando em 355 vidas perdidas. Em 2021, esse número
subiu para 1.579 acidentes, com os choques sendo responsáveis por 674 óbitos.
Mesmo profissionais experientes, muitas vezes pressionados por prazos ou excesso de confiança,
negligenciam protocolos básicos. Neste artigo, vamos mergulhar nos 5 erros segurança mais comuns e
persistentes no dia a dia da profissão e como você pode se blindar contra eles.
- Trabalhar em Circuitos Energizados (Falta de
Desenergização)
Este é, talvez, o erro mais crítico. A tentativa de realizar manutenções ou instalações sem desligar o
disjuntor correspondente é uma prática que coloca o eletricista em risco imediato de choque e arco
elétrico. Muitas vezes, a pressa para restabelecer o funcionamento de um equipamento leva a descuidos
fatais.
As 5 Regras de Ouro da Desenergização
Para evitar esses erros segurança, a NR 10 estabelece um conjunto de ações coordenadas que garantem a
ausência de tensão durante todo o serviço. Somente após seguir esta sequência a instalação é considerada
desenergizada: - Seccionamento: Promover a descontinuidade elétrica total do circuito.
- Impedimento de reenergização: Travamento mecânico (uso de cadeados) para garantir o controle do
seccionamento. - Constatação da ausência de tensão: Verificação com detectores testados antes e após o uso.
- Instalação de aterramento temporário: Ligação intencional à terra para garantir a
equipotencialidade. - Sinalização e Proteção: Instalar placas de advertência e isolar elementos energizados na zona
controlada.
Exemplo Prático: Um caso real relata um empregado que, ao realizar reparo em uma chave-boia sem a
devida isolação, tocou em partes energizadas e sofreu queimaduras graves e espasmos. A falha? Deixar
partes vivas expostas sem isolar a área de risco. - Negligenciar o Uso de EPIs Adequados
É comum ver eletricistas deixando os óculos de segurança no bolso ou subestimando a necessidade de
luvas isolantes para “serviços rápidos”. Um relato comum em treinamentos de NR 10 é de profissionais
experientes que admitem trabalhar com alta tensão usando apenas luvas de vaqueta, o que é um erro
gravíssimo.
O que a NR 6 e a NR 10 exigem:
Os Equipamentos de Proteção Individual (EPI) são decisivos na preservação da integridade física e seu
uso é obrigatório e gratuito por parte da empresa. Entre os indispensáveis estão:
Capacete Classe B: Protege contra impactos e choques elétricos na cabeça.
Luvas Isolantes de Borracha: Devem ser compatíveis com o nível de tensão (Classe 00 a IV) e
sempre protegidas por luvas de cobertura (vaqueta ou pelica).
Vestimentas Condutivas ou Antichama: Roupas de algodão com tratamento retardante a chamas
são essenciais para evitar queimaduras por arcos elétricos.
Calçados de Segurança: Botinas sem componentes metálicos e com isolamento adequado.
Lembre-se: o uso incorreto ou a ausência de EPI é uma das principais causas de acidentes fatais.
- Não Cumprir os Processos de Bloqueio e Etiquetagem
(LOTO)
O procedimento de Lockout/Tagout (LOTO) é um requisito mínimo para prevenir acidentes. O erro
reside em confiar que “ninguém vai mexer no painel” enquanto você trabalha. Sem o bloqueio físico
(cadeado) e a etiqueta de identificação, outro profissional pode reenergizar o circuito inadvertidamente.
Por que o bloqueio é vital?
Impede o acionamento acidental por terceiros.
Garante que o circuito só será ligado quando o último profissional concluir sua tarefa.
A sinalização informa quem é o responsável, o setor e a razão do desligamento.
A falha na padronização do LOTO é um risco silencioso que compromete todo o controle de energias
perigosas. - Uso de Ferramentas Inadequadas ou Improvisadas
(“Gambiarras”)
A “autoconfiança” baseada em improvisos e “achismos” é um convite ao desastre. Utilizar alicates ou
chaves de fenda sem isolamento certificado (VDE) pode transformar a ferramenta em um condutor de
eletricidade direto para o corpo do trabalhador.
Erros comuns com ferramentas:
Fusíveis “baratos”: Substituir o fusível original de um multímetro por um arame ou fusível comum
retira a proteção contra picos de energia, podendo causar explosões na mão do técnico.
Instrumentos sem classificação CAT: Usar um medidor que não possui a classificação de categoria
(CAT) adequada para a tarefa coloca o profissional em risco de sofrer com transientes e arcos elétricos.
Pontas de prova danificadas: Ignorar o isolamento das pontas de prova pode causar contatos
acidentais fatais.
Sempre utilize equipamentos certificados e submeta ferramentas isolantes a testes dielétricos anuais. - Ignorar Riscos Adicionais e Condições Ambientais
Muitos eletricistas focam tanto no choque elétrico que esquecem que acidentes indiretos, como quedas e
incêndios, são igualmente perigosos. A NR 10 exige a análise das condições ambientais antes de qualquer
serviço.
Riscos que você não pode ignorar:
Trabalho em Altura (NR 35): Um choque leve a 5 metros de altura pode causar uma queda fatal. O
uso de cinturão tipo paraquedista é obrigatório acima de 2 metros.
Umidade e Fatores Biológicos: A umidade reduz drasticamente a resistência elétrica da pele,
aumentando a gravidade do choque. Além disso, eletricistas em redes externas correm riscos com ataques
de abelhas, formigas e animais peçonhentos.
Espaços Confinados (NR 33): Locais com ventilação insuficiente podem ter deficiência de oxigênio
ou acúmulo de gases inflamáveis, exigindo monitoramento constante da atmosfera.
Dado Relevante: Em 2023, foram registrados 963 incêndios de origem elétrica, com 67 mortes. Muitos
desses incêndios começam com sobrecargas causadas por dimensionamento incorreto de condutores e
disjuntores.
Consequências: Além da Saúde Física
Os erros segurança não afetam apenas o corpo do eletricista. Existe o que chamamos de “Iceberg dos
Custos” em acidentes de trabalho. Enquanto as lesões são a ponta visível, a base do iceberg inclui:
- Danos Materiais: Destruição de equipamentos e interrupção da produção, gerando perdas financeiras
significativas. - Responsabilidade Civil e Criminal: A negligência, imperícia ou imprudência podem levar a processos
judiciais, multas e até penas de detenção para os responsáveis. - Impacto Familiar: Perda de renda e transtornos psicológicos permanentes para a família da vítima.
Conclusão e Próximos Passos
A segurança em instalações elétricas é uma responsabilidade compartilhada entre empregador e
empregado. Seguir as diretrizes da NR 10, manter o treinamento atualizado e nunca ceder à pressão do
tempo são as únicas formas de garantir que você voltará para casa em segurança ao final do dia.
A negligência não é uma opção quando lidamos com uma força tão poderosa quanto a eletricidade. Invista
em qualificação constante e na manutenção rigorosa de seus equipamentos.
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Brasil. Se você tiver dúvidas sobre qual EPI é ideal para sua função ou quiser saber mais sobre
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