No Brasil, a segurança do trabalho enfrenta um paradoxo alarmante: embora o país possua uma das
legislações mais rigorosas do mundo, os números de sinistralidade continuam subindo. Em média,
registra-se um acidente de trabalho a cada 49 segundos em solo brasileiro. Mais preocupante ainda é o
dado de que cerca de 70% dos colaboradores não utilizam o EPI (Equipamento de Proteção Individual) de
forma sistemática ou correta em suas jornadas.
Para o gestor de Saúde e Segurança do Trabalho, esse cenário representa um desafio constante. Afinal, o
problema nem sempre é a falta do equipamento, mas o seu uso inadequado ou a negligência deliberada.
Por que, mesmo diante do risco de morte ou lesões incapacitantes, a resistência ao uso do EPI ainda é tão
alta?
Neste artigo, vamos mergulhar nas causas raízes dessa negligência, analisar o impacto dos acidentes de
trabalho e oferecer estratégias práticas, baseadas em cultura de segurança e tecnologia, para elevar os
índices de conformidade na sua empresa.
O Cenário da Insegurança Laboral no Brasil
A realidade das estatísticas é um “balde de água fria” para qualquer planejamento de prevenção de riscos.
Entre 2012 e 2022, o Brasil notificou mais de 6 milhões de Comunicações de Acidentes de Trabalho
(CAT), resultando em mais de 54 mil óbitos. Em 2025, o país atingiu um recorde histórico com 806.011
acidentes registrados, um número que evidencia a urgência de novas abordagens na gestão de SST.
As lesões mais frequentes ocorrem em extremidades: dedos (24%), pés (8%), mãos (7%) e joelhos (5%)
são as partes do corpo mais atingidas. Muitas dessas lesões poderiam ser evitadas ou mitigadas com o uso
rigoroso de luvas, calçados de segurança e joelheiras — itens básicos do rol de EPI.
A Falsa Sensação de Segurança
Um dos grandes obstáculos é a “falsa sensação de segurança”. Muitas vezes, o trabalhador acredita que
está protegido apenas por portar o equipamento, ignorando que um capacete rachado, uma jugular solta ou
uma bota com solado desgastado anulam a barreira de proteção.
Os 5 Principais Motivos da Negligência com o EPI
Para mudar esse comportamento, o gestor precisa entender o “porquê” da resistência. As fontes apontam
cinco pilares principais:
- Desconforto e Falta de Ergonomia
Este é, sem dúvida, o motivo mais citado. Equipamentos que causam calor excessivo, reduzem a
mobilidade ou provocam dores (como óculos que apertam ou protetores auriculares desconfortáveis)
geram uma resistência natural. Quando o EPI atrapalha a execução da tarefa, o trabalhador tende a retirá-
lo para “agilizar” o serviço.
- Percepção de Perda de Produtividade
Em ambientes de alta pressão por metas, o colaborador pode enxergar o equipamento como um estorvo.
Luvas que retiram a sensibilidade tátil ou máscaras que dificultam a respiração em ritmos intensos são
frequentemente abandonadas em prol de uma suposta eficiência.
- O Viés da Invencibilidade
A autoconfiança excessiva é um veneno para a segurança do trabalho. Trabalhadores experientes
costumam acreditar que acidentes “só acontecem com os outros” ou que sua habilidade substitui a
necessidade de proteção. Esse pensamento é perigoso porque a segurança não pode ser baseada na sorte. - Falha na Conscientização e Treinamento
Muitas vezes, o treinamento é visto apenas como uma obrigação burocrática para cumprir a NR-6. Se o
colaborador não entende a gravidade do risco real a que está exposto, ele não valoriza o equipamento. A
falta de conhecimento sobre como ajustar ou higienizar o item também contribui para o desuso. - Pressão dos Pares e Cultura Organizacional
O comportamento humano é moldado pelo grupo. Se os líderes ou colegas mais influentes não utilizam o
EPI, o novo colaborador se sentirá desencorajado a usá-lo para não parecer “medroso” ou destoar do
ambiente.
Além da NR-6: O Papel da Cultura de Segurança
A norma regulamentadora NR-6 estabelece que o empregador deve fornecer o EPI gratuitamente e
fiscalizar seu uso. No entanto, a gestão eficaz vai além da lei. O equipamento deve ser tratado como a
última barreira de proteção, e não a primeira.
A Hierarquia de Controle de Riscos
Antes de focar apenas no indivíduo, a gestão deve priorizar o controle na fonte (engenharia) e medidas
administrativas. Quando a empresa foca exclusivamente no EPI, ela acaba transferindo a responsabilidade
total do risco para o trabalhador.
Uma cultura de segurança madura é aquela em que o cuidado é um valor, não uma obrigação. Isso
envolve:
Liderança Ativa: Gestores que usam o equipamento corretamente e participam dos diálogos de
segurança.
Comunicação Transparente: Um ambiente onde o trabalhador pode relatar falhas no equipamento
sem medo de punição.
Feedback Contínuo: Ciclos curtos de orientação e reconhecimento podem reduzir desvios de
conduta em até 38% em um ano.
O Impacto Jurídico e Financeiro da Não Utilização
Para a empresa, o custo do não uso é altíssimo. Além das multas e interdições por descumprimento das
normas, os acidentes geram processos judiciais onerosos, pensões vitalícias e elevação do Fator
Acidentário de Prevenção (FAP).
Obrigações e Penalidades
Para a Empresa: Além de fornecer e treinar, deve substituir imediatamente qualquer peça
danificada e manter registros fiéis de entrega (que podem ser eletrônicos ou biométricos).
Para o Funcionário: O uso é obrigatório para a finalidade destinada. A recusa injustificada é
considerada ato faltoso, podendo resultar em advertências, suspensões e até demissão por justa
causa.
Tecnologia: A Nova Aliada dos Gestores de SST
A digitalização transformou a forma como monitoramos a prevenção de riscos. O uso de planilhas
manuais está sendo substituído por sistemas inteligentes que garantem que nenhum colaborador fique
desprotegido.
Inovações que Salvam Vidas
Sistemas de Gestão Automatizados: Plataformas como o OnSafety permitem o controle de entrega, troca e
higienização via smartphone, com assinatura eletrônica e consulta automática de validade do Certificado
de Aprovação (CA).
EPIs Inteligentes (IoT): Já existem botas com sensores de impacto e etiquetas RFID em capacetes que
alertam sobre o desgaste ou a presença do trabalhador em áreas de risco.
Modelagem 3D e Personalização: O uso de digitalização permite criar equipamentos sob medida,
resolvendo o problema crônico do desconforto e do ajuste inadequado.
Exemplo Prático: Uma mineradora nacional que adotou EPI conectados combinados com
acompanhamento de segurança registrou uma queda de 30% no índice de afastamentos em apenas seis
meses.
Estratégias para Aumentar a Adesão ao Uso do EPI
Como gestor, você pode implementar as seguintes ações para reverter o índice de 70% de negligência:
Seleção Participativa: Antes de comprar um novo lote de luvas ou óculos, realize testes com os
trabalhadores e peça feedbacks sobre o conforto.
Treinamentos Práticos e Visuais: Utilize exemplos reais e dados estatísticos para quebrar a
percepção de invencibilidade. Mostre, por exemplo, como o uso correto pode reduzir em 30% o
risco em quedas.
Digitalização do Controle: Elimine a burocracia do papel. O uso de biometria e registros digitais
facilita a fiscalização e garante segurança jurídica para a empresa.
Manutenção e Higiene: Garanta que o local de armazenamento seja adequado. Um equipamento
sujo ou mal conservado é um convite ao desuso.
Conclusão: Segurança é Estratégia, não Burocracia
A negligência com o EPI é um problema multifacetado que envolve desde questões biológicas (conforto)
até psicológicas (cultura). No entanto, os dados são claros: o uso inadequado pode aumentar em até 60% o
risco de acidentes graves.
Para o gestor de SST, o caminho para transformar essa realidade passa por humanizar a segurança.
Quando o trabalhador entende o “porquê” antes do “como”, o uso do equipamento deixa de ser um fardo e
se torna um ato de consciência profissional.
Sua empresa está pronta para dar o próximo passo na proteção dos colaboradores? Investir em tecnologias
de monitoramento e em uma cultura de cuidado mútuo não é apenas uma obrigação legal, é um diferencial
competitivo que preserva o seu maior ativo: a vida humana.
Quer otimizar a gestão de EPIs na sua empresa?
Procure soluções tecnológicas que automatizam o controle de CA e facilitam a fiscalização em tempo real.
Cuidar de um é proteger todos!